quarta-feira, 29 de julho de 2009

Athletic Bilbao: o ícone de um povo

Texto que publiquei no Blog "Torcida Ganha Jogo" (http://www.torcidaganhajogo.blogspot.com/).


Eu vos apresento um clube de futebol cujo significado vai muito além do futebol. O Athletic Club Bilbao, ou, simplesmente, Athletic Bilbao não é apenas um clube, não é mais um time como tantos outros que existem no mundo do futebol moderno. O Athletic Bilbao é um ícone, o símbolo emblemático da identidade de seu povo. O Athletic é a expressão de um povo, é a representação de uma causa, de uma luta... Luta por liberdade e autodeterminação.

O Athletic Bilbao é um clube basco, ou seja, situa-se na região do chamado País Basco, na Espanha. Os bascos travam uma luta histórica contra o poder central de Madrid há séculos, e esta luta ganhou um corpo nacionalista nos fins do século XIX, com a fundação de grupos nacionalistas bascos. Em plena ditadura fascista de Franco, o povo basco e sua região foram massacrados pela opressora força da ditadura franquista. Mas o povo permaneceu na luta, e o Athletic Bilbao se manteve de pé.

O Athletic Bilbao prima por um princípio básico: só veste o manto vermelho e branco quem nasce na denominada Euskal Herria, a terra dos bascos. Isso compreende o País Vasco (região autônoma espanhola), Navarra e Iparralde (País Vasco francês). Além disso, também aceitam jogadores FORMADOS no território basco, nas "canteras" de algum clube basco (como o Aranzubia, por exemplo).

Quem não for da Euskal Herria ou não tiver sido formado nas “canteras” de algum clube basco, não pode jogar pelo Athletic. Espanhóis ou franceses podem jogar pelo Atlhetic, mas têm que ser espanhóis e franceses nascidos na região que compreende o território da Euskal Herria (País Basco), um exemplo disto é Bixente Lizarazu, campeão do Mundo com a seleção francesa de 1998, nascido na região basca francesa (Iparralde), e que jogou pelo Athletic.

Fundando em 1898, o centenário Athletic é um dos clubes mais tradicionais da Espanha. O Athletic jamais caiu para a segunda divisão, sempre esteve na elite do futebol espanhol. O seus estádio, o San Mamés, é um dos mais antigos da Espanha, foi o único a receber jogos em todas as edições da primeira divisão espanhola.

No ranking histórico da primeira divisão espanhola, o Athletic Bilbao é o 3º colocado, ou seja, na pontuação geral de todas as edições do campeonato espanhol, o Athletic só fica atrás dos milionários Real Madrid e Barcelona.

A maior goleada aplicada em jogos do campeonato espanhol pertence ao Athletic e não foi em cima de um clubezinho qualquer, foi contra o Barcelona: Athletic 12x1 Barcelona.

O Athletic é um dos maiores campeões na Espanha, são 8 campeonatos espanhóis e 24 Copas do Rei (o segundo maior vencedor da história, perdendo apenas para o Barcelona).

Por falar em Copa do Rei, a final da última temporada (2008/09) envolveu o Athletic Bilbao e o Barcelona. O vencedor se tornaria o “Rei de Copas”, pois ambos tinham 24 títulos.

Embora de forma mais moderada que os bascos,
os catalães também nutrem um sentimento nacionalista e uma luta contra o poder central de Madrid.

A final marcou o encontro de dois clubes que representam as bandeiras de lutas de suas “nações”. De um lado o Athletic Bilbao, uma verdadeira seleção de bascos, do outro o Barcelona, uma seleção milionária, repleta de estrangeiros, porém um símbolo para o seu povo.

Dois momentos foram marcantes:

1. Na execução do hino nacional da Espanha, bascos e catalães se juntaram e, em uníssono, vaiaram o hino que representa o centralismo e a repressão madrilista. A televisão espanhola, neste momento, cortou o áudio da transmissão na ridícula tentativa de esconder a realidade. Sem dúvida, foi um momento único e histórico.
2. O Athletic saiu na frente e depois sofreu a virada. Mesmo com o jogo praticamente perdido, os seus bravos torcedores continuavam a cantar e a apoiar o time, em reconhecimento ao esforço de terem chegado tão longe. Cantavam muito mais alto e faziam uma festa muito mais bonita que os próprios torcedores do Barcelona. Ao fim da partida, os campeões do Barca foram ao encontro da torcida basca e a reverenciou, em um claro sinal de respeito e admiração.


Dados do Athletic Bilbaop:

Fundação: 1898

Sócios: 34.373

Estádio: San Mamés (inauguradao em 1913) - capacidade: 40 mil espectadores (todos sentados)

Títulos:

Campeão Espanhol (8): 1930, 1931, 1934, 1936, 1943, 1956, 1983 e 1984.

Campeão da Copa do Rei (24): 1902, 1903, 1904, 1910, 1911, 1914, 1915, 1916, 1921, 1923, 1930, 1931, 1932, 1933, 1943, 1944, 1945, 1950, 1955, 1956, 1958, 1969, 1973 e 1984.

Campeão da Supercopa da Espanha (1): 1984.

Um clube com esta história e com tantos títulos, só permite que atletas bascos vistam o seu manto (sagrado). É ou não é um grande exemplo de luta e honra? É ou não é um orgulho para todos aqueles que acreditam em uma causa justa?

O Athletic Bilbao é um raro exemplo de como um clube pode manter suas tradições sem se render aos “encantos” do futebol moderno. O Athletic se coloca como a resistência do povo basco e, por conseguinte, torna-se um ícone de resistência ao futebol globalizado, mercantilizado, transformado em um mero negócio.

GORA ATHLETIC!

Vídeos:

O ultimo doblete, temporada 1983/84:

http://www.youtube.com/watch?v=F1fcL_BqRfw

As vaias ao hino espanhol (final da Copa do Rei, 2008/09):

http://www.youtube.com/watch?v=qvBZ-JXZpNA

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Inocentes incongruências


Às vezes eu me pergunto. Com o que ela sonha?

Dorme, minha querida, dorme serenamente até o alvorecer do dia seguinte.

Eu estarei sempre de olho em você. Para a proteger.

Estarei ao seu lado mesmo quando você não sentir a minha presença. Ou, por (des)ventura, quando você não mais lembrar de minha existência.

Eu vou estar sempre com você. Vou levá-la, sempre, em meus pensamentos.

Você me inspirou a ser a melhor pessoa que eu poderia ser. Desculpe-me se a decepcionei. Desculpe-me se não fiz você se orgulhar de mim.

Tenha certeza. Você um dia estará por conta própria. A viver a vida que sempre desejou.

E eu tenho certeza. Uma única certeza: um dia você irá sorrir. Olhando para o passado, deixando as mágoas para trás. Você irá sorrir. Lembranças a farão sorrir.

Em uma noite de solidão, olhe para o céu. Veja o brilho das estrelas. Contemple o resplandecente cintilar da noite mais iluminada do ano. Serei eu, a sorrir, lembrando-me de você.

Eu vou estar sempre ao seu lado. A levarei em meus pensamentos (mais carinhosos).

Você me inspirou a ser a melhor pessoa que eu pude ser. Peço desculpas se não foi o bastante. Desculpe-me, eu não fui suficiente.

Eu tenho certeza. Na verdade, uma esperança. Você um dia irá sorrir. E em um lapso de memória, breves passagens a farão sorrir. Lembranças de um passado pretensamente feliz.

Ah! Como eu gostaria de estar em seus sonhos... Será que alguma vez você pensa em mim?

“Sonhar não custa nada (...) Deixe a sua mente vagar. Não custa nada sonhar”.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

FC Porto x Benfica: uma rivalidade que vai além do futebol


Quando entram em campo para disputar aquele que é hoje o maior clássico português, FC Porto e Benfica levam para o gramado muito mais que uma rivalidade entre dois clubes de futebol. Os dois clubes representam duas cidades e duas macrorregiões: Porto x Lisboa; Norte x Sul. Este clássico representa a eterna rivalidade entre as duas maiores cidades portuguesas e cada uma representa a sua região, o Porto muito mais identificado com o Norte do que Lisboa com o Sul, por razões históricas.

Quem olha para Portugal, sem conhecer bem a sua história, pode pensar que se trata de um país igual, que todos os habitantes são parecidos e que existe uma unidade nacional. Talvez por sua dimensão, Portugal passe essa impressão. Porém, desde os tempos mais antigos, Portugal convive com uma divisão fortemente marcada por suas duas grandes cidades, e, atualmente, é no futebol que esta divisão se aflora mais e se manifesta de forma mais acentuada.

A origem de Portugal está no Norte, o Condado Portucalense. Portucale vem de Porto de Cale, a cidade do Porto. Foi do Condado Portucalense que partiu a reconquista dos territórios do Sul, ocupados pelos Mouros (mulçumanos). Lisboa só viria a ser conquistada em 1147, oito anos depois da formação do Reino de Portugal por D. Afonso Henriques e quatro anos após o reconhecimento da independência de Portugal pelo Rei de Leão e Castela, através do Tratado de Zamora.

Durante a ocupação Moura, a cidade de Lisboa se chamava Al-Ushbuna e a maioria de seus habitantes chegou a adotar a língua árabe e a religião mulçumana da minoria invasora que se constituiu como elite. Até hoje, quando alguém do Norte quer provocar os lisboetas, refere-se a estes como os “mouros”.

A partir do reinado de D. Manuel I, quando Portugal começou a se consolidar como Império, viu-se o fortalecimento centralismo português. O poder central se encontrava na capital Lisboa e um Estado absolutista, evidentemente, limitava a autonomia administrativa dos municípios, por conseguinte, Lisboa gozava de uma posição quase que hierárquica sobre as demais cidades portuguesas. O Porto sempre foi o maior expoente do inconformismo.

Chegando ao Século XX , o marco da rivalidade Porto x Lisboa é o Regime Fascista de Salazar. A política autoritária do fascista Antônio de Oliveira Salazar adotou o centralismo econômico e concentrou em Lisboa não apenas o poder político e econômico como também cultural. Salazar, grosso modo, separou Lisboa do resto do país.

No futebol não foi diferente. O "Sistema Político Fascista e Centralista-Salazarista" foi claramente favorável aos clubes de Lisboa, principalmente o Benfica, que era o mais popular. O Regime Fascista se servia das conquistas dos clubes de Lisboa e, especialmente, do Benfica para enaltecer a sua grandeza e se aproveitar da alienação das massas, usando o futebol como um meio de “entretenimento” e um escape à fome e a miséria a que levou o fascismo.

Não é por acaso que o Benfica é conhecido por “encarnados”. O vermelho sempre esteve associado ao comunismo, que, por sua vez, era antagônico ao fascismo. Logo, o Benfica não podia ser referenciado como os “vermelhos”, jamais! Por isso os benfiquistas são “encarnados”.

O FC Porto era o único clube que conseguia, apesar dos pesares, fazer frente aos de Lisboa. Por essa razão, afirmava o mítico José Maria Pedroto que um título do FC Porto valia por dois ou mais do que o de um clube de Lisboa, uma vez que não se competia em igualdade de circunstâncias.

O FC Porto, portanto, assim como a cidade do Porto, tornou-se o foco de resistência, o símbolo do inconformismo, o baluarte do Norte.

Com o fim do Regime Salarazarista, o retorno à democracia e, mais ainda, com a chegada de Jorge Nuno Pinto da Costa à presidência do FC Porto, o futebol português deu uma guinada ao Norte e, pelo menos no futebol, o Porto passou a concentrar o poder e as conquistas.

Como já foi dito, os portistas fazem questão de frisar a influência mulçumana em Lisboa e até hoje se refere aos benfiquistas como “mouros”, em tom pejorativo. Os benfiquistas, por sua vez, fazem referência à outra passagem da história de Portugal, e chamam pejorativamente os portistas de “tripeiros”.

Contudo, enquanto os benfiquistas se ofendem com a referência aos mouros, os portistas se orgulham do termo “tripeiros”. É que durante o período dos descobrimentos o Infante D. Henrique pediu aos moradores do Porto alimentos de todo tipo, ficando a população unicamente com as tripas.

Para os portistas, como bons portuenses e habitantes do Norte, essa passagem representa mais uma referência de seu nacionalismo e patriotismo, o amor e a entrega a Portugal.

Não à toa, a torcida Super Dragões entoa nos estádios “Tripeiro eu sou /
E tenho o Porto no meu coração...”, além de puxar o grito “Quem bate palmas é tripeiro (palmas), é tripeiro (palmas), é tripeiro (palmas)”.

No que tange às torcidas, essa rivalidade pode ser verificada nos confrontos entre os Super Dragões (FC Porto) e No Name Boys (Benfica).

Em 2008, suspeita-se que integrantes dos No Name Boys incendiaram um ônibus dos Super Dragões, que havia se deslocado a Lisboa para assistirem à decisão do campeonato português de hóquei em patins. Neste mesmo dia ocorreram confrontos violentos entre as duas torcidas, após emboscada dos No Name Boys aos Super Dragões na saída de Lisboa (fala-se que, supostamente, os benfiquistas contaram com a ajuda da polícia, isto é objeto de investigação por parte do Ministério Público português).

Do lado do FC Porto, até certo tempo os Super Dragões tinham um cântico não muito pacífico em referência a Lisboa. Cantavam com orgulho, especialmente nos jogos na capital: “Nós só queremos Lisboa a arder / Lisboa a arder / Nós só queremos Lisboa a arder / Lisboa a arder”. Já não cantam mais, porém não se pode deixar de fazer menção à tamanha demonstração de amor e apreço pela capital do seu país.

Enfim, a título de conclusão, podemos afirmar que quando Benfica e FC Porto entram em campo para se defrontarem, pisam no gramado não apenas para uma disputa de futebol. Benfica e FC Porto levam consigo a paixão e o ódio de duas cidades e uma rivalidade quase milenar.

O Benfica, clube mais popular de Portugal, vestido de “encarnado”, representa o centralismo português; a concentração de poder na capital Lisboa; o desprezo e a arrogância lisboeta em relação ao resto do país, em especial ao povo do Norte.

O FC Porto, como bem disse o seu presidente recentemente, é "o grande baluarte do Norte, cada vez mais esquecido e amordaçado", representando, portanto, o brio e bravura do Norte, inconformado e historicamente resistente.

FC Porto x Benfica, Benfica x FC Porto, é muito mais do que um simples jogo de futebol.

terça-feira, 14 de julho de 2009

14 de julho de 1789


Há exatos 220 anos o povo parisiense invadiu as ruas da capital francesa e tomou um dos maiores símbolos do absolutismo francês, a Bastilha.

A Bastilha era uma fortaleza medieval utilizada como prisão, local onde o rei trancafiava seus inimigos políticos. Por ser o local onde ficavam presos os inimigos do absolutismo francês, a Bastilha se tornou símbolo deste Regime.

No dia 14 de julho de 1789 o povo apoderou-se de cerca de 30 mil fuzis e alguns canhões e rumou em direção à Bastilha. Em poucas horas a Bastilha foi tomada pelos populares. Ao Rei restou duas alternativas: render-se ante a força das massas ou iniciar uma guerra nas ruas de Paris. Optou pela capitulação.

Este evento marcou a Revolução Francesa e se transformou em um dos maiores símbolos das revoluções burguesas.

O imortal Waldimir Maia Leite, em Opinião no Diario de Pernambuco, escreveu “O 14 de Julho não é data construtiva e emocional apenas da França e dos franceses. É data mundial de grande efeméride. (...)14 de Julho - uma data não só dos franceses, mas do mundo todo...”.

Sem dúvida a Revolução Francesa significa muito não apenas para os franceses, como para todos os povos do mundo. Ela foi a revolução de maior impacto e repercussão. Além disso, ela foi uma verdadeira “revolução social de massa” (Hobsbawm). Representou um exemplo que inspirou outros povos, como os latino-americanos que lutaram por sua independência a partir de 1808.

A Revolução Francesa não foi fruto de um partido ou apenas um movimento organizado, ela refletiu o consenso de idéias da burguesia, o que permitiu ao movimento revolucionário uma unidade efetiva. Estas idéias, formuladas pelos filósofos, eram as do liberalismo clássico.

Um dos legados da Revolução Francesa que se tornou um marco para todos os países, foi a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789.

Os direitos fundamentais do homem têm sua consagração normativa com a promulgação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na França, em 26/08/1789. Eric Hobsbawm a definiu como “um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres”, ou seja, a garantia da liberdade do indivíduo perante o Estado, a limitação e o controle do poder do Estado.

Entretanto, embora reconhecendo o fundamental valor da Revolução Francesa e, principalmente, o marco significativo da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, é impossível não analisar esta passagem da história da humanidade com um olhar um pouco mais crítico.

É indiscutível que, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, fundou-se uma nova perspectiva, base do Estado moderno, apoiada em uma relação diferente entre o Estado e o cidadão, na qual passou a haver um limite aos abusos de poder do Estado, através de novas formas de controle do poder estatal.

Contudo, chegamos a algumas indagações:

A quem serviu esta nova perspectiva? A quais interesses respondia essa nova base de Estado, essa diferente relação entre o Estado e o cidadão? Quem se beneficiou desta “radical inversão de perspectiva” (Bobbio)?

Foi o povo, a massa social que tomou a Bastilha, o grande beneficiado desta mudança histórica?

O povo tomou a bastilha. A burguesia chegou ao poder.

Hobsbawm definiu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão como “um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres”, porém, o próprio autor complementa a sua afirmação e diz “mas não um manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária”. Ou seja, pregar a liberdade, não significava, obrigatoriamente, a defesa da democracia e de uma sociedade verdadeiramente igualitária.

Os burgueses, ou melhor, os liberais clássicos, não estavam preocupados com a democracia ou com uma sociedade igualitária. O que os motivava era a fundação de um Estado que permitisse a sua ascensão e afirmação social.

Vítimas do Estado absolutista, os burgueses tinham grande preocupação com os limites do poder estatal. Necessitavam, por conseguinte, do estabelecimento de uma nova relação com o Estado.

O burguês liberal clássico era muito mais um constitucionalista do que um democrata. Para os burgueses, era mais interessante uma monarquia constitucional do que uma república democrática. É o que afirma o historiador Eric Hobsbawm:

[...] O burguês liberal clássico de 1789 (e o liberal de 1789-1848) não era um democrata, mas sim um devoto do constitucionalismo, um Estado secular com liberdades civis e garantias para a empresa privada e um governo de contribuintes e proprietários.

Podemos concluir, portanto, que a burguesia, na persecução da liberdade esteve mais preocupada com a sua liberdade perante o Estado e sua conseqüente ascensão e afirmação social do que propriamente com a democracia e com o povo.

Por fim, reiterando a importância a o significado histórico do 14 de julho de 1789, a ideia que pretendemos passar com esta “visão crítica” é que não podemos jamais confundir “liberalismo” com DEMOCRACIA, afinal um Estado Liberal de Direito nem sempre é sinônimo de Estado Democrático de Direito e a história mostra-nos isso com clareza.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Que este sonho nunca chegue ao fim

Majestosa alvorada.
Fagulha de luz em meio à escuridão.
Sol que começa a raiar.

Noite de sono plácido.
Sonhei que estava no paraíso,
Lugar de deleite sem fim.

Ao meu lado uma mulher especial.
De um brilho dourado,
Tom angelical.

Meu espírito repousa em calmaria.
Meu coração bate entusiasmado.
Todo o meu corpo treme excitado.

Em seus sorrisos encontro emoção.
Nos seus abraços, proteção.
Os seus lábios são pura satisfação.

Mais que uma companheira,
Ela é parte de minha essência.
A melhor porção de minha existência.

Com ela descobri a felicidade,
Aprendi o que é o amor,
Encontrei uma razão para viver.

Fecho os olhos.
Volto a dormir.
E fico à espera de que este sonho nunca chegue ao fim...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Ronildo Maia Leite


Morreu na manhã de ontem, no Hospital Esperança, um grande homem e um dos maiores jornalistas de Pernambuco, Ronildo Maia Leite.

Pessoa que eu tive o prazer de conhecer e a gratidão de, nos nossos esporádicos encontros, poder desfrutar de sua inteligência, nas nossas discussões sobre política nas quais eu ouvia muito mais (muito mesmo) e falava quase nada.

Sempre que ele me encontrava em algum lugar, virava-se para mim e brincava "você que é o comunista?", e emendava "quando é que você vai deixar de ser comunista?". No seu estilo bem humorado de costume.

Ronildo Maia Leite, escreveu 15 livros e ganhou quatro prêmios Esso de jornalismo, o prêmio de maior referência no jornalismo.

Ronildo era meu tio-avô, irmão mais novo do meu avô o também jornalista e escritor Waldimir Maia Leite.

Descanse em paz, Ronildo.

Notícias sobre o seu falecimento:

Blog do Jamildo: http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/noticias/2009/07/05/morre_o_jornalista_ronildo_maia_leite_49618.php

Nota de Jarbas Vasconcelos: http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/noticias/2009/07/05/jarbas_lamenta_morte_de_ronildo_49629.php

PE 360°: http://pe360graus.globo.com/noticias/cidades/personalidade/2009/07/05/NWS,493779,4,78,NOTICIAS,766-JORNALISTA-RONILDO-MAIA-LEITE-MORRE-ANOS-RECIFE.aspx

sábado, 4 de julho de 2009

Manhã de Sábado


Manhã de Sábado

Manhã de sábado. Mês de julho.

A chuva bate na janela. São 5h50m da manhã e nem sinal do sol para iluminar o (meu) dia.

Sinto cala-frios por todo o corpo. Reflexo da temperatura mais baixa neste começo de sábado chuvoso de (inverno) julho, mas também causado pela ansiedade misturada à frustração que corroem o (meu) ser.

As noites são longas e inquietas. Acumulo sonos mal dormidos. Sonhos que (me) despertam em choro. Esperança que (des)afoga em desespero.

Desperto cedo. Na expectativa de que um novo dia traga uma nova vida. Que os raios de sol tragam consigo muito mais que a energia termosolar. Que (me) iluminem a vida. Que sejam raios de esperanças renovadas. De um novo começo. Um despertar renovado. Como se tudo começasse do zero e todo o passado tenha ficado para trás, esquecido, superado, tanto quanto uma vida pregressa, da qual sequer temos lembranças.

A realidade, contudo, é dura. Implacável. Inevitável.

Acordo dia após dia com o mesmo desejo. Acordo dia após dia com a mesma decepção. Acordo dia após dia sentindo a mesma dor do vazio de quem viu escorrer pelas mãos parte significativa de sua vida.

É manhã de sábado. 6h17m. A chuva insiste em cair.

As gotas da chuva acompanham o ritmo das lágrimas que escorrem pelo (meu) rosto. Incessante. Incontrolável.

Ouço a água bater na janela. Ouço meu coração bater desafortunadamente.

Pergunto(-me) se isto terá fim. Quanto tempo mais hei de sofrer de tal maneira pelos erros que eventualmente (eu) tenha cometido.

Olho ao (meu) redor. Olho (para mim) à procura de algo que (me) conforte. Não vejo nada. Nada que (me) dê forças para suportar essa provação. Nada que (me) faça crer na felicidade. Nada que (me) traga a esperança de volta.

Olho ao (meu) redor. Observo o (meu) quarto. Vejo a cama: convidativa, tentadora. Ela (me) chama ao seu encontro. Com a promessa de que nela terei, pelo menos, a possibilidade de (adormecido) fugir da realidade.

Reconheço na cama o (meu) único abrigo. Um refugio. Uma fuga. Dormir para fazer o tempo passar. Para que este (novo) velho dia, igual aos demais, seja (um pouco) mais curto.

Dorme, dorme, meu menino...

sábado, 27 de junho de 2009

Cena Final

Tirando um pouco as teias de aranha. Tentando voltar a escrever sobre algo para além do futebol.


CENA FINAL


A noite estava fria, chovia bastante e o vento era impiedoso. As árvores não paravam de balançar e muitas folhas caiam ao chão.

A rua estava deserta. Nem uma alma viva se atrevia a enfrentar aquela manifestação da natureza. Ninguém se aventurava a sair de casa.

Ninguém exceto um homem. Esguio e elegante. Trajado como se fosse a uma noite de gala. Levava consigo uma maleta de couro.

Solitário. Cabeça baixa, ombros vergados. Caminhava lentamente.

Nem o frio. Nem a chuva. Nem o vento que soprava de maneira assustadora. Nada parecia incomodar este homem. Nada interrompia a sua vagarosa marcha.

O homem para junto ao muro de uma casa há muito abandonada. Abre a maleta. Retira um spray. E escreve:

“DEIXO ESTE MUNDO DA MESMA FORMA QUE CHEGUEI: INSIGNIFICANTE”

Volta-se para a maleta. Retira uma pistola prateada. Abre a boca. Aproxima o cano da pistola. Ouve-se um murmuro lamuriante. Seguido de um grito desesperador:

“DEUS, TEM PIEDADE DA MINHA POBRE ALMA”.

Ouve-se um tiro.

O corpo cai ao chão. Ao seu lado, na maleta aberta, vê-se uma foto. Ele está ao lado de uma linda mulher. Ambos aparentemente felizes. No verso estava escrito: agradeço-te, minha linda, pelos melhores dias da minha vida.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

F.C. PORTO TETRACAMPEÃO PORTUGUÊS


F.C. PORTO TETRACAMPEÃO PORTUGUÊS

O FC Porto conquistou ontem, com duas rodadas de antecipação, o tetracampeonato português. O segundo tetra de sua história, 11 anos após o primeiro ganho em 1998 (sendo que em 1999 o FC Porto se sagrou pentacampeão, recorde em títulos consecutivos até hoje em Portugal).

Líder com 66 pontos conquistados em 28 jogos, o FC Porto tem uma campanha irrepreensível: 20 vitórias, 6 empates e apenas 2 derrotas. Some-se a isso o melhor ataque com 56 gols marcados (média de 2 gols por jogo) e a melhor defesa com 16 gols sofridos (média de 0,57 gol por jogo).

Este tetracampeonato consolida a hegemonia do FC Porto em Portugal. Nos últimos 25 anos o FC Porto tem sido o senhor do futebol português, com supremacia e superioridade invejáveis (acreditem, literalmente de causar inveja nos rivais). Pegue o parâmetro que quiser e verá o passeio do “Dragão”.

Nos últimos:

- 25 campeonatos: 17 títulos.
- 20 campeonatos: 14 títulos.
- 15 campeonatos: 11 títulos.
- 07 campeonatos: 06 títulos.

Registre-se que nos últimos 15 anos o FC Porto foi pentacampeão (1995 a 1999), bicampeão (2003 e 2004) e agora é tetracampeão (2006 a 2009). Nos últimos 25 anos, além de 17 títulos, o FC Porto foi vice-campeão 7 vezes, sempre perdendo o título na última rodada do campeonato.

Todos os títulos do FC Porto nos últimos 25 anos:

1984/85, 1985/86, 1987/88, 1989/90, 1991/92, 1992/93, 1994/95, 1995/96, 1996/97, 1997/98, 1998/99, 2002/03, 2003/04, 2005/06, 2006/07, 2007/08, 2008/09...

Não há como negar: o FC Porto é o senhor de Portugal. Supremo. Hegemônico. Sinônimo de campeão.

JESUALDO FERREIRA O PRIMEIRO TREINADOR PORTUGUÊS A SER “TRICAMPEÃO”


Quando assumiu o comando da equipe técnica do FC Porto na temporada 2006/07, Jesualdo Ferreira nunca havia conquistado um título em sua carreira de treinador.

Hoje, três anos depois, celebra o seu tricampeonato pessoal (o primeiro título da campanha do tetra foi sob o comando do holandês Co Adriaanse).

Jesualdo Ferreira é, assim, o primeiro treinador português a conquistar três títulos nacionais consecutivos. É, também, o primeiro treinador a conquistar três títulos consecutivos com o FC Porto (antes o Artur Jorge havia conquistado três títulos, mas não foram consecutivos).

Lista de todos os treinadores campeões nacionais com o FC Porto:

1934 -1935 - JOSEPH SZABO
1938 -1939 - MIGUEL SISKA
1939 -1940 - MIGUEL SISKA
1955 -1956 - YUSTRICHT
1958 -1959 - BELLA GUTMANN
1977 -1978 - JOSÉ MARIA PEDROTO
1978 -1979 - JOSÉ MARIA PEDROTO
1984 -1985 - ARTUR JORGE
1985 -1986 - ARTUR JORGE
1987 -1988 - TOMISLAV IVIC
1989 -1990 - ARTUR JORGE
1991 -1992 - CARLOS ALBERTO SILVA
1992 -1993 - CARLOS ALBERTO SILVA
1994 -1995 - BOBBY ROBSON
1995 -1996 - BOBBY ROBSON
1996 -1997 - ANTÓNIO OLIVEIRA
1997 -1998 - ANTÓNIO OLIVEIRA
1998 -1999 - FERNANDO SANTOS
2002 -2003 - JOSÉ MOURINHO
2003 -2004 - JOSÉ MOURINHO
2005 -2006 - CO ADRIAANSE
2006 -2007 - JESUALDO FERREIRA
2007 -2008 - JESUALDO FERREIRA
2008 -2009 - JESUALDO FERREIRA



JORGE NUNO PINTO DA COSTA: O MAIOR PRESIDENTE DE TODOS OS TEMPOS


Quando o Sr. Pinto da Costa assumiu a presidência do FC Porto em abril de 1982, o clube portuense era apenas a terceira força do futebol português.

Hoje, passados 27 anos, o FC Porto é o melhor e mais bem estruturado clube português; hegemônico em Portugal; um dos melhores clubes da Europa.

O Sr. Pinto da Costa é o homem responsável por levar o FC Porto ao patamar mais elevado do futebol mundial. Que fez deste clube um orgulho a todos os seus adeptos e o maior de Portugal.

De clube com abrangência regional, o FC Porto passou a maior clube português, com destaque mundial.

Em abril de 1982 o FC Porto tinha em seu palmares 7 títulos nacionais, 4 Taças de Portugal e 1 Supertaça “Cândido de Oliveira”.

Hoje, maio de 2009, 27 temporadas praticamente completadas, o FC Porto tem 2 títulos Mundiais, 2 títulos da Europa, 1 Taça UEFA, 1 Supertaça Europeia, 24 campeonatos nacionais, 13 Taças de Portugal* e 15 Supertaças “Cândido de Oliveira”.

Em 27 campeonatos portugueses sob a presidência de Pinto da Costa, o FC Porto foi campeão 17 vezes.

Pinto da Costa é, hoje, o presidente com mais títulos nacionais conquistados. Até ontem ele dividia o posto com o lendário Santiago Bernabéu, que, em 35 anos, conquistara 16 campeonatos espanhóis com o Real Madrid.

Pinto da Costa não se limita a ultrapassar Bernabéu apenas em números brutos (17x16), o presidente do FC Porto apresenta uma média de aproveitamento muito superior (17 em 27 x 16 em 35).

Além dos 17 títulos nacionais, Pinto da Costa acumula em 27 anos de presidência 46 títulos à frente do FC Porto.

O FC Porto é, atualmente, o clube com maior número de títulos no Século XXI. São 16 trófeus: 6 campeonatos, 3 Taças de Portugal*, 4 Supertaças “Cândido de Oliveira”, 1 Liga dos Campeões, 1 Taça UEFA e 1 “Mundial” interclubes.

*E estes números podem aumentar, pois o FC Porto enfrentará o Paços de Ferreira na final da Taça de Portugal. Podendo, assim, conquistar mais uma “dobradinha” em sua história e, desta forma, somar 14 conquistas na Taça de Portugal (que seria a 10ª de Pinto da Costa ou a 4ª no Séc. XXI).

Não é por acaso que os portistas cantam com orgulho: “Pinto da Costa olé, Pinto da Costa olé, Pinto da Costa olé, Pinto da Costa olé, olé”.

Neste momento de festa e celebração, fica o registro e a homenagem ao maior responsável por este FC Porto GIGANTE e CAMPEÃO.

terça-feira, 5 de maio de 2009

As Cotas de TV do “Brasileirão” e o “Apartheid Futebolístico”

No próximo sábado, 09 de maio de 2009, inicia-se mais um Campeonato Brasileiro de Futebol da Série A. Como tem sido habitual ano após ano, sempre que se aproxima do começo da competição surgem protestos de torcedores descontentes com a forma como é feita a distribuição dos recursos advindos dos contratos de direito de transmissão do referido campeonato.

Diante da importância do tema e da falta de um estudo mais detalhado a respeito, dediquei parte do segundo semestre de 2008 na elaboração de um trabalho mais aprofundado na análise da questão.

Este estudo resultou em minha monografia no curso de Direito pela Universidade Católica de Pernambuco, cujo título foi “A divisão das cotas de televisão do campeonato brasileiro de futebol à luz do princípio da igualdade”.

A curiosidade do tema e o ineditismo da abordagem chamaram a atenção da professora da Faculdade Salesiana do Nordeste, profª. Fátima Oliveira (mestre em Direito Constitucional), a qual me honrou com o convite para que fosse apresentado um artigo científico no IV Salesius, evento organizado pela Fasne. Apresentei, então, o artigo “A cotas de televisão do campeonato brasileiro e o ‘apartheid futebolístico’”.

Já em 2009, após algumas atualizações e necessárias adaptações, ficou concluído o esboço do livro, o qual espero lançar o mais breve possível. O título provisório do livro é “Futebol brasileiro: princípio da igualdade vs. ‘apartheid futebolístico’”.
Passada esta enorme (porém, impreterível) apresentação, vamos ao assunto que verdadeiramente interessa.

A importância e relevância do tema estão mais que evidentes. É algo que mexe com a maior paixão do povo brasileiro, o futebol, o qual é hoje um grande negócio.

O esporte é atualmente responsável por cerca de 1,5% do PIB brasileiro, e tem no futebol o seu carro chefe. Cerca de 70% dos investimentos publicitários nas transmissões esportivas se concentram no futebol. Em termos globais, o futebol já responde por 1,25% do PIB mundial. É, indubitavelmente, um grande negócio.

No Brasil, o negócio do campeonato brasileiro de futebol da Série A (principal competição de âmbito nacional) se encontra sob o poder de uma associação privada (Clube dos Treze), que domina as negociações e concentra os recursos, criando um pequeno e restrito grupo de elite, privilegiado, em detrimento de todos os outros, gerando uma brutal desigualdade. Fazendo surgir, assim, o que se pode denominar de “apartheid futebolístico”.

É impossível tratar deste assunto de forma breve, porém tentarei ser o mais sucinto possível.

DEMOCRACIA E IGUALDADE

Etimologicamente, a palavra democracia tem origem no termo grego dèmokratía, que significa o governo do povo; a soberania popular. Demos = povo e kratos = força, poder. Democracia, em seu primeiro significado é o poder que emana do povo; há democracia no Estado em que o povo detiver o poder. Como regime político, de acordo com Abraham Lincoln, “a democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo”.

O artigo 1º da Constituição Federal de 1988 consagra o Estado Democrático de Direito em seu texto: “Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos [...]”.

O artigo 5º, caput, da Constituição Federal de 1988, ao afirmar que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, não nivela apenas os cidadãos ante a norma legal positivada, submete o legislador e, consequentemente, a legislação ao princípio da igualdade, vez que nenhuma lei deve ser editada em contrariedade à isonomia, sendo vedada, portanto, qualquer forma de diferenciação ou discriminação.

Tratar equitativamente todos os cidadãos que se encontram em situações idênticas, pois não se pode olvidar da máxima de Aristóteles: “a igualdade consiste em tratar os iguais igualmente e os desiguais na medida de sua desigualdade”. Todavia, Celso Antônio Bandeira de Mello alerta para o questionamento essencial: “quem são os iguais e quem são os desiguais?”. A resposta a esta questão elucida a dúvida a respeito de quais discriminações são juridicamente intoleráveis.

É imprescindível a existência de critérios distintivos razoáveis os quais justifiquem os tratamentos jurídicos diversos. A lei precisa de levar em conta as diferenças que há entre os vários grupos que compõem a sociedade.

O princípio da igualdade não busca um igualitarismo absoluto e muito menos permite que ocorram diferenciações e discriminações absurdas e arbitrárias. A isonomia visa a garantir o respeito aos semelhantes e suas peculiaridades, enfim, o respeito à sociedade plural e democrática.

PEC-10/2007, CLUBE DOS TREZE E A DIVISÃO DESIGUAL

De autoria do Deputado Federal André de Paula (DEM/PE), a Proposta de Emenda à Constituição-10/2007 pretende alterar a Constituição Federal, acrescentando um novo parágrafo, o §4º, ao seu art. 217, o qual trata do Desporto.

A PEC-10/2007 promove a necessidade de uma regulamentação que vise a acabar com as discrepâncias existentes na forma como é conduzida a distribuição dos recursos decorrentes, principalmente, dos contratos de direitos de transmissão do campeonato brasileiro de futebol da Série A (primeira divisão).

O responsável pelas negociações dos direitos de transmissão do campeonato em tela é o Clube dos Treze. Bem como é o Clube dos Treze que divide e distribui os recursos provenientes dessas negociações.

Autodenominado “União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro” (art. 1º do seu estatuto), o Clube dos Treze é uma pessoa jurídica de direito privado, constituída como associação de administração do esporte, modalidade futebol profissional.

Ao repartir os recursos entre os clubes participantes do campeonato brasileiro, o Clube dos Treze age sem critérios de equidade, priorizando os seus associados em detrimento das demais associações esportivas as quais não fazem parte de seu seleto grupo.

Alguns questionamentos podem ser levantados:

- Porque a CBF concedeu legitimidade ao Clube dos Treze para gerir técnica e disciplinarmente os assuntos inerentes à organização e realização do campeonato brasileiro de futebol profissional da Série A?
- Porque a CBF concedeu legitimidade ao Clube dos Treze para prestar serviços de exploração comercial e de marketing da competição por ela gerida?

Atualmente as chamadas “cotas de televisão” estão distribuídas de acordo com os seguintes grupos (valores referentes à cota fixa de televisão aberta:

Grupo I: R$21 milhões – São Paulo, Flamengo, Corinthians, Palmeiras e Vasco*.
Grupo II: R$18 milhões – Santos.
Grupo III: R$15 milhões – Atlético-MG, Cruzeiro, Internacional, Grêmio, Botafogo e Fluminense.
Grupo IV: R$11 milhões – Goiás, Sport, Vitória, Atlético-PR, Coritiba.
Grupo V: R$5,5 milhões - Portuguesa*.
Grupo VI: Bahia (R$3,45 milhões)** e Guarani (R$3,3 milhões)**
Grupo VI: “Convidados” - Avaí, Grêmio Barueri, Náutico e Santo André.***

*Vasco e Portuguesa, por estarem na Série B em 2009, recebem 50% do valor. Por isso, o Vasco tem direito a R$10,5 milhões e a Portuguesa R$5,5 milhões.

**Bahia e Guarani, por estarem a mais tempo fora da Série A, recebem uma cota menor.

***Ficou determinado, em assembleia do Clube dos Treze, realizada em 15 de janeiro de 2009, que os “convidados” negociariam as suas cotas com a diretoria executiva da entidade. Informações dão conta que o Náutico conseguiu aumentar a sua cota para R$7,9 milhões. Quanto ao demais, provavelmente receberão R$3,4 milhões, , valor base para os clubes que sobem da Série B para a Série A (tendo como exemplo a cota do Ipatinga ano passado).

Em 2008, o Corinthians foi beneficiado por esta política seletiva do Clube dos Treze, que privilegia os seus associados em detrimento de todos os outros clubes que disputam a competição. O clube paulista disputou a Série B em 2008 e teve direito a uma cota de R$10,5 milhões. Na Série B, apenas o Bahia, também associado ao Clube dos Treze, obteve benefício semelhante, com cota girando os 5,25 milhões.

O Guarani, por seu turno, que disputou a Série C em 2008, embolsou 25% do valor a que teria direito se estivesse na Série A. Tendo percebido, portanto, R$2,25 milhões.

É justo um clube da Série B ser contemplado com recursos referentes aos direitos de transmissão do campeonato da Série A? Como é possível um clube obter recursos que dizem respeito aos direitos de outros clubes? Como pôde o Corinthians, por exemplo, que estava na Série B ter embolsado recursos que diziam respeito ao campeonato da Série A? E, ainda mais insensato: qual é a justificativa para um clube que não disputa a Série A do campeonato brasileiro perceber valor superior a clubes que dele participam? O que justifica tamanho absurdo?

Não é paradoxal, insensato, incoerente e injusto se referir a clubes que conquistaram seus direitos dentro dos gramados como “convidados”, dando a entender que estes clubes, ao invés de estarem inconformados diante da injusta condição que lhes é imposta, deveriam estar agradecidos por serem “convidados” a receberem uma “fatia do bolo”?

Sempre lembrando: o Clube dos 13 não negocia apenas os direitos de transmissão de seus associados, mas de todos os clubes participantes da Série A do Brasileiro.

CONCENTRAÇÃO DE RECURSOS E O “APARTHEID FUTEBOLÍSTICO”

Vimos como é feita a divisão das “cotas” de televisão do campeonato brasileiro da Série A. Constatou-se que associações pertencentes ao Clube dos Treze têm privilégios na divisão dos recursos.

Esta “inaceitável distorção” fere a democracia em seu âmago. Assemelha-se muito mais a uma oligarquia, sistema de governo que contraria diametralmente a democracia. Oligarquia, na visão de Aristóteles, era um governo mau de poucos. Como nos explica Bobbio: “oligarquia (...) significa propriamente ‘governo de poucos’, corresponde a ‘governo mau de poucos’ (...) Ainda hoje se costuma falar de ‘oligarquias’ (...) para designar grupos de poder que governa sem o apoio popular”.

Cria-se um seleto e pequeno grupo de clubes privilegiados. Um apartheid que divide clubes “grandes” de “pequenos”, contribuindo para o engessamento da mobilidade entre os clubes, com a tendência de os “grandes” se tornarem sempre maiores e os “pequenos” se tornarem, gradativamente, menores; ficando condenados à marginalidade do futebol nacional. É o fosso intransponível que separa os “incluídos” dos “excluídos”.

Se a África do Sul viveu por longos anos um apartheid racial, sistema deplorável e repugnante; e o Brasil se encontra hoje em uma situação de apartheid social, como bem alerta Cristovam Buarque, é possível, sem exagero, fazer uma analogia entre esta apartação social e a concentração dos recursos no futebol brasileiro e, por conseguinte, dizer que no futebol essa apartação também se verifica nas relações entre os clubes e entidades desportivas, gerando o que se pode denominar de “apartheid futebolístico”.

Ao concentrar o poder nas mãos de poucos clubes (“apartheid futebolístico”), agride-se diretamente o princípio da igualdade, pois cria distinções e discriminações absurdas, sem fundamento ou justificativas. Não nos esqueçamos que disse Montesquieu, “o amor pela república, numa democracia, é o amor pela democracia; o amor pela democracia é o amor pela igualdade”.

Em consequência à agressão ao princípio da igualdade, macula-se o elemento essencial de uma competição esportiva: a competitividade entre os adversários.

Com isto, fere-se o Estatuto do Torcedor (Lei 10671/2003), o qual, em defesa e proteção do torcedor, busca a competitividade através da imposição de critérios técnicos, como, por exemplo, é previsto no art. 10, §1º.

Não por acaso os clubes que, dentro de campo, por meio do mérito esportivo, garantiram presença na Série A do futebol brasileiro são rebaixados à condição de meros “convidados”. São “convidados” pois são os “excluídos”, os marginalizados pelo “apartheid futebolístico”.

Nas três maiores ligas nacionais da Europa (em faturamento), Inglaterra, Itália e Alemanha, existem critérios mais equânimes e democráticos. Na Inglaterra, a Premier League, terceira maior liga de esportes no mundo e maior liga de futebol, por exemplo, o dinheiro é dividido em três partes:

1. 56%: são divididos igualitariamente entre todos os clubes.
2. 22%: baseados na classificação final da temporada anterior, ou seja, o mérito desportivo.
3. 22%: variáveis de acordo com o número de partidas transmitidas pela TV.

APROVAÇÃO DA PROPOSTA DE EMENDA: NECESSIDADE DE ELABORAÇÃO DE UMA LEI QUE REGULAMENTE A DISTRIBUIÇÃO DAS “COTAS DE TELEVISÃO”

Sendo aprovada e entrando em vigor, será necessária a elaboração de uma lei que regulamente a distribuição das cotas de televisão, oriundas da venda dos direitos de transmissão do campeonato brasileiro de futebol.

Lei específica, que definirá a destinação e redistribuição para os clubes dos referidos valores contratuais (em conformidade com o referido §4º a ser acrescentado ao art. 217 da CF/88).

É impossível haver uma lei que vá agradar a todos os clubes (e torcedores), bem como é inviável que esta lei venha a criar uma igualdade absoluta entre os clubes partícipes do campeonato brasileiro (não se deve confundir princípio da igualdade com igualitarismo absoluto).

Todavia, é possível se chegar a termos razoáveis e se elaborar uma lei que venha a definir critérios técnicos e desportivos, reverenciando a isonomia e consagrando a competitividade, valor perseguido pelo Estatuto do Torcedor.

No meu livro eu trago sugestões de critérios a serem adotados por esta nova lei. Critérios baseados, principalmente, nos exemplos da Inglaterra e Itália.


CONCLUSÃO: UM CHAMADO A TODOS OS TORCEDORES E UM PEDIDO AOS “REPRESENTANTES DO POVO”

Disse Descartes na abertura do clássico Discurso do Método: “inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso”.

Se não há bom senso por parte de quem comanda o futebol brasileiro, a aprovação e entrada em vigor da PEC-10/2007 é de suma importância para o equilíbrio e a persecução da igualdade no futebol brasileiro.

Uma lei que busque fundamento em critérios técnicos, trazendo consigo um tratamento justo e equânime, respeitando a isonomia e a competitividade entre os clubes participantes de um campeonato, é a solução ideal para que se caminhe a passos firmes na direção da moralidade e do fortalecimento da democracia não só no futebol, como em toda a sociedade brasileira.

Por isso falamos aos torcedores insatisfeitos:

FAÇAMOS UMA GRANDE MOBILIZAÇÃO EM PROL DA MORALIZAÇÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO – Existem meios constitucionais e legais para revertermos essa situação. Devemos fazer uma ampla campanha para que a PEC-10/2007 se torne uma realidade.

Não acredito que o caminho correto seja nos juntarmos ao que prejudicam o futebol brasileiro. Por uma questão ética, devemos lutar pelo FUTEBOL brasileiro e não apenas pelo nosso clube do coração.

Lembrem-se: a “divisão das cotas” é algo que prejudica TODOS os clubes do futebol brasileiro. Se a PEC-10/2007 sair do papel, TODO O FUTEBOL brasileiro será beneficiado.

Para finalizar, deixamos um pedido aos “representantes do povo”:

NOBRES DEPUTADOS FEDERAIS, A MORALIZAÇÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO ESTÁ EM VOSSAS MÃOS – A PEC-10/2007 já foi aprovada por unanimidade na CCJC. O primeiro passo já foi dado.
Onde estão os deputados de estados cujos clubes são claramente prejudicados? Que tal se juntarem a fim de tornar o nosso futebol mais DEMOCRÁTICO?

Cabe aos senhores, “representantes do povo”, o pontapé inicial nesta grande mudança em nosso futebol.

A minha parte eu estou fazendo. E vocês?